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Em terra de cego quem tem um olho é louco!

Capitano acordou à beira de uma praia, náufrago. Levantou a cabeça e avistou pessoas andando nuas. Parecia uma comunidade. Levantou-se e caminhou até algumas barracas próximas da areia.

- Olá! – Anunciou se aproximando de uma família.
Todos se assustaram e correram se escondendo. Alguns gritavam socorro e alertava outros moradores. Corriam nus para todos os lados. Capitano pediu calma, pegou o braço de alguém e pediu água, explicou sua situação. Outros pararam para ouvir e aos poucos começaram a tatear com as mãos para vê-lo melhor. Eram cegos, todos cegos. Cegos e nus. Num trajeto natural, com todos em torno dele, foi levado até uma oca maior.
- Sim, náufrago! Meu barco pegou a tempestade de ontem e naufragamos alguns quilômetros a leste!
- Náufrago? Barco? O que é um barco? - Perguntou o que parecia ser o chefe da aldeia.
- Sim, são como casas flutuantes com, mastro, vela, quilha, timão....
Os moradores amedrontados e curiosos abafaram a fala dele com balbucios e exclamações do povo incrédulo. Por sua narração aquelas pessoas pareciam nunca ter conhecido um barco.
Final da tarde, sentados em torno de uma fogueira, Capitano contava para toda aldeia como eram as cidades, as árvores e foguetes. As crianças tentavam brincar de futebol ao lado maravilhadas com a narração. Um velho apontava seu nariz para o céu imaginando gaivotas. O chefe da aldeia, encantado com histórias de guerra, imaginava-se vencedor.
Naquele dia Capitano foi deitar-se apaixonado por uma jovem que nada falava, nada perguntava. Lena era filha do chefe, morena, cabelos encaracolados, pele clara, sempre atenta ao que ele dizia, parecia admirar aquele forasteiro tão inteligente e criativo.
Na manhã seguinte Capitano foi acordado pelas crianças que tateavam sua cama e jogavam areia antes de correrem.
- Louco!
As pessoas comentavam ao encontra-lo, evitavam, riam. Agora era conhecido como doido. Aquele que diz ver coisas, inventa cidades, jogos, conta histórias de guerra. Riam dele.
Sentada numa pedra a beira mar, Lena apontava seu nariz pro horizonte e esperava que Capitano se aproximasse. Ali trocaram confissões, ela declamava poesias de cor e ele falava de aviões. Ali se aproximaram os corações. Ele forasteiro, ela índia.
Dias depois foi ter com o pai na moça, queria casar-se e autorização para saírem da lá. Planejavam família, trabalho. Nos seus sonhos a cidade teria planejamento de acessibilidade, ela poderia andar sozinha pelo bairro.
Diante do pedido de casamento, toda cerimônia que compete ao homem o pedido de responsabilidade, o chefe da aldeia sentiu-se desconfortável.
- Meu filho, nós realmente gostamos de você, mas só posso conceder a mão a minha filha com uma condição!
- Qual?
- Fure seus olhos! Aí você será um de nós. Enquanto você enxergar, serás um louco! Não posso permitir que minha filha case-se nessas condições!
Na manhã seguinte Lena e Capitano apontavam o nariz para o horizonte.

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